Leandro Banner

Prepare-se para voltar ao momento em que o Universo DC descobriu que ter apenas um problema já era pouco! A Panini Comics apresenta a COLEÇÃO CRISE NAS MÚLTIPLAS TERRAS, reunindo as principais histórias diretamente ligadas à monumental saga CRISE NAS INFINITAS TERRAS, de Marv Wolfman e George Pérez. Mais do que simplesmente revisitar a CRISE, a coleção mergulha não apenas nas consequências, mas também nos fatos e histórias marcantes que antecederam esse grande evento das HQs mainstream, bem como nos personagens e nos acontecimentos que ajudaram a transformar definitivamente o Universo DC. Heróis, vilões, Terras paralelas e crises existenciais — trocadilho irresistível, perdoem… — porque uma única realidade, aparentemente, nunca foi suficiente para essa turma. Uma verdadeira viagem pela era em que a DC resolveu colocar ordem na casa… destruindo metade dela primeiro. Esta nova COLEÇÃO da Panini Comics recupera justamente esse momento fundamental da história da DC, com sua primeira edição reunindo as histórias que estiveram presentes no encadernado CRISE NAS MÚLTIPLAS TERRAS, lançada em 2008 também pela Panini, permitindo revisitar algumas das aventuras que ajudaram a construir a ideia de um Multiverso povoado por diferentes versões dos grandes personagens da Editora das Lendas. Mais do que simplesmente uma sequência de histórias de super-heróis, este material funciona como uma espécie de arqueologia da própria DC. Aqui estão conceitos, personagens e aventuras que ajudaram a estabelecer a tradição das Terras paralelas e que, posteriormente, seriam fundamentais para a construção da grande CRISE. É uma oportunidade de observar como a editora foi desenvolvendo, ao longo dos anos, uma mitologia cada vez mais complexa — até chegar ao ponto em que foi necessário colocar o Multiverso inteiro na mesa e perguntar: “E se a gente começasse tudo de novo?” O mais interessante é que, conhecendo o destino dessas histórias, o leitor contemporâneo pode apreciá-las sob uma perspectiva diferente. Aquilo que hoje parece familiar — versões alternativas de heróis, realidades paralelas, encontros impossíveis e personagens de diferentes épocas compartilhando aventuras — foi, em muitos momentos, uma das grandes ousadias conceituais dos quadrinhos de super-heróis.

A COLEÇÃO CRISE NAS MÚLTIPLAS TERRAS é, portanto, uma coleção que não apenas revisita uma das maiores sagas da DC, mas também ajuda a compreender como aquele universo chegou ao ponto de precisar de uma crise para sobreviver. E quando a solução para décadas de continuidade complicada envolve antimatéria, universos sendo destruídos, heróis de várias gerações e o inigualável GEORGE PÉREZ desenhando tudo isso, fica evidente que a DC nunca teve exatamente vocação para resolver seus problemas de maneira discreta Dessa forma, iniciaremos uma série de análises de cada um dos capítulos que comporão esta COLEÇÃO, começando pelo encadernado que traz CRISE NAS MÚLTIPLAS TERRAS, que inicia esta compilação e que já foi objeto de análise neste espaço no ano passado bem aqui https://cinemacompoesia.com/2025/03/25/hq-territorio-neutro-preludio-de-crise-nas-multiplas-terras/ , retornando agora com um review devidamente atualizado para essa nova e incrível COLEÇÃO! Tudo começou com o saudoso e criativo roteirista GARDNER FOX que, por ser muito antenado às notícias e evoluções de teorias físicas e científicas, se baseou no então novo e revolucionário conceito trazido pela chamada TEORIA DAS CORDAS, que postulava, de forma geral, acerca da possibilidade da existência de várias dimensões coexistindo simultaneamente, mas em frequências vibratórias distintas entre si. Dessa forma, em 1961, na edição #123 do título THE FLASH, GARDNER FOX promove o encontro do FLASH BARRY ALLEN (criado em 1956) com o FLASH da Era de Ouro JAY GARRICK (aqui no Brasil conhecido por muito tempo como JOEL CICLONE), criado em 1940, quando Allen inadvertidamente rompe a barreira vibracional que separa seu mundo do de sua contraparte mais velha. Nessa Terra paralela, não apenas Jay Garrick estava aposentado, como também todos os demais integrantes da chamada SOCIEDADE DA JUSTIÇA tinham encerrado suas atividades vinte anos antes daquele momento.
Editorialmente falando, essa iniciativa nada mais era do que um reaproveitamento de heróis que, de certa forma, haviam caído no esquecimento quando da reformulação promovida por JULIUS SCHWARTZ em 1956 com o relançamento do então NOVO FLASH Barry Allen na seminal SHOWCASE #4, cuja semelhança com o herói da Era de Ouro consistia apenas no nome, uma vez que o uniforme, a origem e até mesmo a identidade secreta eram diferentes. Dessa forma, Gardner Fox reapresentou um herói até então desconhecido (para os novos leitores do começo da década de 1960) para uma nova legião de fãs que ficaram completamente extasiados com aquela aventura entre os dois FLASHES, e passaram a demandar outro encontro, e depois outro e por aí foi (esses encontros foram compilados no Brasil na edição FLASH DE DOIS MUNDOS da Editora Panini Comics, de 2022). Isso serviu para reacender o interesse pelos antigos heróis e a DC passou a ser inundada por milhares de cartas dos leitores sugerindo novos encontros, que mais heróis da Era de Ouro transpusessem a “barreira vibracional” entre aquela que passou a ser chamada de Terra-2 (onde existiam os heróis da Era de Ouro) para a denominada Terra-1 (o planeta dos heróis da “atualidade”, a Terra Primordial). Dessa forma, depois de vários meses de incerteza, Schwartz e Fox atenderam aos pedidos e fizeram velho e novo dividirem espaço outra vez numa trama em duas partes, originalmente publicadas em JUSTICE LEAGUE OF AMERICA #21-22, de 1963, com ilustrações de MIKE SEKOWSKI (lápis) e BERNARD SACHS (arte-final), que inauguram esta fantástica coletânea, que possui um ótimo e elucidativo prefácio de MARK WAID, que detalha ainda mais tudo que foi dito até o momento. A edição de JLA #21 traz a história CRISE NA TERRA-1, na qual uma trinca de vilões da Terra-1 (planeta da Liga da Justiça) conhece outro trio de malfeitores da Terra-2 (planeta da Sociedade da Justiça), história que, a despeito de sua aparente simplicidade, estabelece um verdadeiro marco nas HQs mainstream que teria seu apogeu pouco mais de duas décadas depois. Mas não nos adiantemos pois, certamente, ao longo dessa série de análises falaremos sobre esse momento. Na edição #22, com o título chamado CRISE NA TERRA-2, os vilões das Terras 1 e 2 trocam de lugar e começam a gastar a fortuna proveniente de seus saques no planeta em que não eram conhecidos. No entanto, incapazes de superar a própria ganância, os vilões começam a realizar novos roubos nos respectivos planetas trocados, enquanto os Lanternas Verdes Alan Scott e Hal Jordan tentam libertar seus companheiros para deter os trios vilanescos. O resultado desse primeiro encontro não poderia ser outro senão um grande sucesso da Editora das Lendas, de modo que, nos anos que se seguiram, esses eventos ocorreriam praticamente de forma anual, geralmente a cada verão, para felicidade dos leitores. Assim sendo, em JUSTICE LEAGUE OF AMERICA #29, a equipe criativa composta por GARDNER FOX (roteiro), MIKE SEKOWSKI e BERNARD SACHS (arte) presenteou o público com a história chamada CRISE NA TERRA-3, na qual a Liga e a Sociedade da Justiça se unem num confronto titânico contra os vilões mais cruéis e poderosos da Terra-3, o famigerado SINDICATO DO CRIME DA AMÉRICA, uma versão maligna da LJA, que faz aqui sua primeira aparição e que depois se mostrou uma das melhores e mais intrigantes criações da DC Comics.

Na edição seguinte, depois de ser derrotada em função de uma artimanha do CORUJA (o equivalente do Batman no Sindicato) a Liga da Justiça só pode contar com a Sociedade da Justiça para ajudá-los a derrotar o Sindicato do Crime da América. Já na história UMA TERRA SEM LIGA DA JUSTIÇA, publicada em JLA #37, em 1965, Johnny Trovoada, antigo integrante da Sociedade da Justiça, decide conhecer sua contraparte na Terra-1, que na verdade não passa de um gângster fracassado. Mas ao enganar o seu doppelgänger da Sociedade, o Trovoada da Terra-1 toma o lugar do atrapalhado justiceiro da Terra-2, e se apodera do gênio mágico de Trovoada. Dessa forma, decide exterminar os heróis da Terra-1 viajando no tempo e alterando os eventos essenciais que os criariam, colocando seus capangas no lugar dos heróis, gerando assim um planeta que JAMAIS conheceu os heróis que originalmente comporiam a a Liga da Justiça, a TERRA-A. Em JLA #38, intitulada CRISE NA TERRA-A, os heróis da Sociedade da Justiça, na Terra-2, se empenham em salvar seus amigos da Liga ao tentar restabelecer a realidade da Terra-1 que todos conhecemos.
Nas edições #46-47, Liga e Sociedade da Justiça se unem mais uma vez para enfrentar uma ameaça sem precedentes proveniente da ruptura do tecido dimensional que separa os dois universos , ocasionando a iminente colisão das Terras 1 e 2, com o Espectro despendendo todos os esforços possíveis para evitar esse choque catastrófico.
Todas as histórias mencionadas foram publicadas anteriormente, como já dito, no encadernado CRISE NAS MÚLTIPLAS TERRAS, em 2008. Os roteiros de GARDNER FOX não são nenhum primor, mas são criativos e, ainda que padeçam de tramas verborrágicas, algumas soluções simplórias e forçadas em alguns momentos, servem como um excelente ponto de partida para o conceito do Multiverso, consubstanciando-se numa sequência de histórias divertidas de se ler, ainda que cansativas em alguns momentos em função do excesso de texto. Os desenhos de MIKE SEKOWSKY, acompanhados pela arte-final de Bernard Sachs, são o ponto fraco da edição, não necessariamente por serem ruins, mas por serem limitados em termos de narrativa e por parecerem apressados em muitos momentos, entregando composições confusas e sem ritmo, algo que não era tão incomum nas HQs da década de 1960, apesar de o artista já ser um veterano naquele momento; é possível perceber uma leve melhora quando SID GREENE assume a arte-final nas últimas histórias da edição. Um ponto interessante a se destacar é que todas as capas desta coletânea serão releituras de capas clássicas feitas por um grande artista das HQs. A edição #1 da COLEÇÃO tem a capa assinada por DAVE GIBBONS e JEROMY COX, uma releitura da capa original de JUSTICE LEAGUE OF AMERICA #21, de 1963, de Mike Sekowsky, Murphy Anderson e Ira Schnapp, que compõe a quarta capa do lançamento. Uma ideia formidável que torna a edição ainda mais interessante.👏🏻
Por fim, alguns anos depois, surgiu a TERRA-S, a Terra do Capitão Marvel – hoje denominado SHAZAM – depois que a DC, em 1972, se apropriou do personagem originalmente criado na FAWCETT COMICS por Bill Parker e C. C. Beck em 1940. Maiores detalhes dessa Terra podem ser vistos na publicação de GRANDES TESOUROS DC – SUPERMAN VERSUS SHAZAM: QUANDO AS TERRAS SE CHOCAM, da Panini Comics. Alguns outros heróis de outras editoras menores também foram sendo incorporados no multiverso da DC Comics ao longo dos anos, e certamente teremos oportunidade de verificar isso no decorrer dessa fantástica COLEÇÃO, que terá suas edições analisadas individualmente neste espaço. Não perca! 😉

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻