Adilson Santos
HÁ QUATRO DIMENSÕES CONHECIDAS PELO HOMEM, TRÊS DAS QUAIS DENOMINAMOS OS TRÊS PLANOS DIMENSIONAIS DE ESPAÇO, E UMA QUARTA É O TEMPO”(WELLS, H.G – A MÁQUINA DO TEMPO)

O homem do final do século XIX estava em um momento de transição na forma de se relacionar com o mundo a sua volta. Com a criação do automóvel aprendera a se locomover mais rápido, com o telefone pôde se comunicar entre as distâncias, substituiu o vapor pela eletricidade e vivia todas as transformações advindas do progresso. O homem ampliava o horizonte à sua frente e descobria novas possibilidades graças ao avanço da ciência. A literatura não demorou a incorporar o impacto de novas descobertas à fértil imaginação de autores que desbravavam novas fronteiras. Na França, Jules Verne (1828 / 1905) nos levou ao redor do mundo, às profundezas submarinas à bordo do Nautilus, mas foi o inglês H.G.Wells (1866 /1946) quem ousou nos levar para o futuro. Há exatos 131 anos, Hebert George Wells publicou, aos 29 anos, seu primeiro livro que serviria de inspiração para diversas outras histórias do gênero, A Máquina do Tempo (The Time Machine).

É verdade que antes de Wells já haviam histórias que falavam em viagens no tempo como Um Conto de Natal (A Christmas Carol) de Charles Dickens, e Um Yankee na Corte do Rei Arthur (A Yankee at King Arthur’s Court) de Mark Twain, em , mas nelas o deslocamento temporal se dava por efeito de mágica ou algum poder sobrenatural, sem qualquer base científica. Foi Wells quem deu à viagem temporal um apuro mais racional ao descrever, embora sem grande detalhes de seu funcionamento, uma ferramenta física capaz de transportar um homem através do corredor infinito das eras. Na história, um homem (cujo nome não sabemos) reúne seus amigos para anunciar sua invenção: uma máquina capaz de se deslocar não pelo espaço (através das três dimensões conhecidas) , mas através do tempo. Claro que seus amigos o recebem com ceticismo, apesar do brilhantismo de suas teorias. Decidido a provar seu intento, o homem se senta na poltrona diante do aparentemente simples painel de sua máquina, composto de duas alavancas e um cronômetro, e desaparece por uma semana. Ao retornar diante do olhar preocupado de seus amigos, ele narra sua incrível jornada ao ano 802.701, um futuro longínquo em que a humanidade foi resumida a duas raças: Os Elois, de porte pequeno e feições belas e os Morlocks, criaturas disformes e de hábitos canibalescos que vivem nos subterrâneos e se alimentam dos Elois. Estes são completamente indefesos e levam uma vida contemplativa e passiva. O viajante se revolta com os descendentes da raça humana e a total falta de perspectiva de evolução seja natural ou social. Apesar do impacto de tentar alertar os leitores do futuro sombrio ao qual a raça humana pode se condenar, H.G.Wells usou da ficção científica como metáfora para retratar as contradições da era vitoriana: O abismo entre burguesia e proletariado observado com a Revolução Industrial, a luta de classes preconizada pelas teorias marxistas, a evolução das espécies de Charles Darwin formam um conteúdo de sub-leitura em A Máquina do Tempo, bem como em outras obras do autor, ecos de sua visão apurada capaz de questionar o presente falando do que está por vir. Wells usou do artifício da viagem ao futuro para tecer sua visão crítica de um processo de industrialização selvagem que ignora a condição humana.

O romance de H.G.Wells foi levado às telas duas vezes: Primeiro em 1960, dirigido por George Pal e estrelado por Rod Taylor e Yvette Mimieux. Essa versão de A Máquina do tempo (The Time Machine) deu ao viajante um nome (coisa que no livro foi omitido pelo autor) , curiosamente H. George Wells, conforme mostrado, no filme, na placa colocada no painel da máquina. O filme dá a data de 12 de Outubro como a chegada de George no futuro, uma metáfora para a chegada em um novo mundo, já que foi esta a data de chegada de Colombo na América. O filme ganhou na época o Oscar de melhor efeitos especiais, além de ter sido indicado para o Hugo Awards (prêmio dado a obras de fantasia e ficção cientifica). A obra de Wells teve nova adaptação em 2003, dirigido pelo neto do próprio H.G.Wells, Simon Wells. Novas mudanças foram feitas no material original como forma de dinamizá-la para a nova geração: o viajante foi rebatizado de Alexander Hartdegen (Guy Perace) e sua história pessoal, inexistente no livro de Wells, foi adicionada com um amor trágico para servir de impulso para sua busca pelo tempo. Os vilões, os Morlocks, ganharam a figura de um líder inteligente, interpretado pelo ator Jeremy Irons. Outra adaptação que merece menção é o roteiro, escrito por Nicholas Meyer e dirigido pelo próprio, que imagina uma perseguição de H.G.Wells a Jack o estripador transportando-o da Inglaterra Vitoriana a São Francisco do final da década de 70. O filme entitulado Um Século em 43 Minutos (Time After Time) trouxe Malcolm McDowell no papel de H.G. Wells e Mary Steenburgen como seu interesse romântico do futuro, Amy Robbins, nome da segunda esposa do autor de A Máquina do tempo, na vida real.

O grande desafio de uma viagem no tempo real é encontrar uma forma a superar as limitações físicas para se dobrar o espaço-tempo. Ao mesmo tempo, a ciência como conhecemos ratifica a impossibilidade de visitar o passado. Outra barreira aparentemente intransponível para a viagem no tempo é o chamado “paradoxo do vovô”: Se alguém voltasse no tempo e impedisse que seu avô casasse com sua avó, então você não nasceria. Logo, se não nasceu, você não existe e, portanto, não poderia viajar no tempo. A contradição representada pelo pensamento lógico parece apontar que, em vez de viajar para seu passado, você estaria criando uma realidade paralela resultante de sua intervenção no passado, conforme explicado pelo personagem Spock (Zachary Quinto / Leonard Nimoy) no filme Star Trek de 2009 e, ainda mais inventivamente no filme Efeito Borboleta (The Butterfly Effect) de 2004, onde cada interferência no curso do passado, provoca uma mudança ainda mais drástica e imprevisível, conforme fundamentado pela conhecida teoria do caos e em noções matemáticas desenvolvidas em 1963 por Edward Lorenz, matemático e filósofo norte-americano. Mesmo restrito à imaginação de escritores e sonhadores, a viagem no tempo é ainda tão fascinante hoje quanto quando H.G.Wells lançou seu livro, adiantando em plena era vitoriana que o que está por vir não é fixo, mas sim volátil, mutável e questionável. Como afirmou o astrofísico Stephen Hawkings ” A possibilidade de viajar no tempo permanece em aberto. Mas não quero apostar nisso. Meu adversário na aposta talvez tenha a vantagem injusta de saber o futuro”. Outro problema para o deslocamento temporal é que a Terra não está parada no espaço, mas se movendo pelo espaço, como lembra o renomado cientista Neil Degrase Tyson que frequentemente lembra que a Terra orbita o Sol, e o Sol orbita a galáxia, o que na prática significa que se você usar uma máquina para voltar ou avançar um dia no tempo sem calcular a posição exata do planeta, você reapareceria no vácuo do espaço, porque a Terra já estará em outro lugar. Quem sabe assim um dia possamos um dia provar que a mente humana pode visitar e revisitar o que já foi , então acrescentar um novo parágrafo a esse artigo, de que a ficção de outrora se tornou o fato do presente, reescrevendo o futuro como se fosse uma página de um livro de história que voltamos para trás e para frente.