60 anos de luz, monstros, destruição e um certo Hayata que nunca teve um dia tranquilo – Leandro Banner

Em 10 de julho de 1966, o Japão conhecia um sujeito enorme, prateado e vermelho, com olhos luminosos, uma espécie de lâmpada no peito e o péssimo hábito de resolver problemas de dimensões colossais na base de raios, socos e uma boa dose de destruição urbana. Nascia então o ULTRAMAN. Sessenta anos depois, a piada seria dizer que o Japão continua sem conseguir manter suas cidades em segurança por mais de uma semana. 😝😝 Mas a verdade é que, por trás das maquetes destruídas, das roupas emborrachadas que faziam as vezes de monstros e dos efeitos especiais artesanalmente produzidos, estava surgindo uma das mais importantes criações da televisão japonesa. A própria Tsuburaya considera a série de 1966 o ponto de partida de uma trajetória que atravessaria seis décadas. A produção original teve 39 episódios com aproximadamente 25 minutos cada, que apresentou ao público a Patrulha Científica, Ultraman e uma galeria de monstros e alienígenas que se tornaria patrimônio da cultura pop japonesa. Mas há alguns fatos anteriores que merecem atenção, pois Ultraman não apareceu exatamente do nada. A experiência do visionário Eiji Tsuburaya, um dos grandes mestres mundiais dos efeitos especiais, já havia produzido GODZILLA e, principalmente, Ultra Q, série de 1966 que funcionou como uma espécie de laboratório para aquilo que viria depois. Ultra Q apresentava fenômenos sobrenaturais, criaturas gigantes, extraterrestres e acontecimentos inexplicáveis, mas ainda não possuía um super-herói central. E aí Ultraman veio para mudar tudo!!

A ideia era relativamente simples: um gigante extraterrestre chega à Terra perseguindo o monstro Bemular e, durante a perseguição, provoca acidentalmente a morte do piloto da Patrulha Científica Shin Hayata (Susumu Kurobe). Para reparar o desastre, Ultraman funde sua existência à do humano, mantendo-o vivo e passando a utilizar seu corpo como hospedeiro, ressurgindo através da cápsula Beta entregue ao revitalizado Hayata. E aqui está uma das grandes sacadas da série: Ultraman NÃO é simplesmente Hayata. Há dois seres compartilhando a mesma existência. Hayata continua sendo membro da Patrulha Científica, enquanto Ultraman representa uma inteligência extraterrestre que escolheu proteger a humanidade. Durante boa parte da série, essa identidade permanece secreta para os demais integrantes da equipe. Consequentemente, Hayata passa a viver uma situação profissional bastante peculiar: durante o expediente ele investiga monstros gigantes e alienígenas e, quando a coisa fica realmente feia, transforma-se secretamente em um alienígena de 40 metros que salva todo mundo. Uma descrição de cargo difícil de encontrar no LinkedIn.😝 E outro elemento fundamental da série é justamente a Patrulha Científica, pois, ao contrário de muitos seriados posteriores, em que o herói praticamente faz tudo sozinho, Ultraman constrói uma relação interessante entre a tecnologia humana e o poder extraterrestre. Hayata, acompanhado pelos demais membros da Patrulha Científica AkikoFuji (Hiroko Sakurai), Mitsuhiro Ide (Masanari Nihei), Daisuke Arashi (Sandayū Dokumamushi) e os demais integrantes da equipe sob a liderança do capitão Toshii Muramatsu (Akiji Kobayashi) investigam fenômenos, enfrentam criaturas, utilizam armas especiais, veículos e equipamentos científicos e tentam compreender aquilo que está acontecendo antes que a situação se transforme em calamidade. Isso é importante porque Ultraman não apresenta simplesmente a humanidade como uma espécie indefesa esperando o salvamento vindo do espaço, pois a Patrulha Científica participa de forma efetiva das histórias. Frequentemente Hayata precisa decidir quando agir como homem e quando agir como Ultraman, e essa dualidade dá à série uma dimensão dramática que poderia ter sido muito melhor explorada no seu decorrer, se não tivesse sido soterrada sob toneladas de maquetes sendo esmagadas. Uma falha que, talvez, começasse a ser repensada a partir de O REGRESSO DE ULTRAMAN, e que podemos abordar em outro momento.😉 É impossível falar de Ultraman sem falar dos monstros.😖 E aqui está outro dos grandes méritos da produção: muitos episódios começam como histórias de investigação científica ou ficção científica tradicional e somente depois se transformam em aventuras de gigantes.

Temos Baltan, representante de uma espécie alienígena que pretende encontrar um novo lar para seu povo; Neronga, criatura associada à eletricidade; Gomora, cujo aparecimento envolve uma expedição e interesses científicos; Jirass, numa história que brinca descaradamente com a iconografia de Godzilla; Mefilas, que prefere a manipulação e a inteligência à pancadaria e tantos outros. Há episódios sobre invasão alienígena, experimentos científicos, energia nuclear, tecnologia, criaturas pré-históricas, exploração espacial, ecologia, medo coletivo e até situações nas quais a humanidade é tão responsável pelo problema quanto o próprio monstro. É justamente essa variedade que impede que os 39 episódios se transformem numa sucessão mecânica de clichês que poderiam se resumir em: “Monstro apareceu. Hayata ficou preocupado. Ultraman apareceu. Soco. Luz piscou. Raio. Monstro explodiu. Fim.” Embora, sejamos honestos, às vezes seja exatamente isso que ocorre!!!😂😂😂😂 Mas, ironias à parte, quando a série funciona melhor, o monstro é apenas a manifestação física de um problema muito maior. Hoje, acostumados a criaturas digitais, captura de movimento e efeitos visuais capazes de transformar praticamente qualquer fantasia em realidade, podemos olhar para Ultraman e perceber as tremendas limitações técnicas; no entanto, tais limitações não prejudicam em absolutamente nada a qualidade e o entretenimento das histórias, que eram muito criativas! A Tsuburaya trabalhava com miniaturas, maquetes, mecanismos mecânicos, fantasias de monstros, composição óptica, fotografia e uma enorme dose de inventividade. O resultado podia apresentar fios visíveis, movimentos pouco naturais e cidades que obviamente eram modelos em miniatura feitas de isopor… mas funcionava!😁👏🏻 Funcionava porque havia uma compreensão extraordinária de escala, enquadramento, iluminação e montagem, um mérito inegável da produção!

Quando Ultraman lutava contra um monstro, a câmera transformava aqueles homens dentro de fantasias em criaturas gigantescas. A maquete fazia o restante. Prédios eram destruídos, veículos eram lançados pelos ares, explosões iluminavam o cenário e, por alguns minutos, o espectador acreditava naquele mundo. A chamada precariedade técnica acabava se convertendo em estilo. E é justamente essa linguagem que ajudou a consolidar o tokusatsu televisivo, pois a influência de Ultraman ultrapassou o Japão e alcançou gerações de cineastas e criadores internacionais; a própria Tsuburaya destaca, entre admiradores e influenciados pela obra, nomes como Guillermo del Toro e Hideo Kojima. O sucesso foi gigantesco. Registros oficiais indicam que a série chegou a alcançar 42,8% de audiência em seu auge, transformando Ultraman em fenômeno social. E isso explica por que o personagem deixou de ser apenas uma série de televisão para se tornar uma verdadeira instituição da cultura popular japonesa. Ultraman virou brinquedo, revista, quadrinho, filme, videogame, atração de eventos e, posteriormente, protagonista de uma quantidade praticamente inesgotável de novas séries. A lógica do universo também foi crescendo de forma despretensiosa e inesperada.
Primeiro veio o ULTRAMAN-SHIN (ou Ultraman-Hayata, como costuma ser conhecido aqui no Brasil), depois, em 1967, ULTRASEVEN, com Dan Moroboshi (Kohji Moritsugu) e um tom frequentemente mais sofisticado e melancólico. Essa segunda série teve 49 episódios e se tornou particularmente famosa por abordar temas como guerra, identidade, preconceito e a relação entre humanos e alienígenas. Depois veio O REGRESSO DE ULTRAMAN, em 1971, protagonizado originalmente por Hideki Go (Jirō Dan) — posteriormente identificado oficialmente como Ultraman Jack. Foi essa produção que começou a amarrar de maneira mais explícita as séries anteriores em um universo compartilhado, com histórias promovendo singelos e inesperados encontros entre Goh, Shin e Seven… E então vieram Ultraman Ace, Ultraman Taro, Ultraman Leo, Ultraman 80 e uma sucessão de outras produções, até as diferentes fases posteriores — Heisei, New Generation e as produções contemporâneas. A família Ultra tornou-se literalmente uma família.😁 Infelizmente, em terras tupiniquins as séries dos personagens que vieram depois de Ultraman Jack não teriam o merecido destaque e reconhecimento! 😖 Ultraman chegou ao Brasil ainda na segunda metade dos anos 1960, mas foi especialmente através de suas exibições na TV Tupi e do Clube do Capitão Aza que conquistou uma geração inteira. Há registros que apontam a estreia brasileira em 8 de março de 1968, pela TV Tupi de Recife, enquanto outras fontes registram passagens iniciais por emissoras como a Bandeirantes. O que importa é que, ao longo dos anos 1970 e 1980, Ultraman passou a fazer parte da memória afetiva de uma geração. E então aconteceu algo que provavelmente confundiu muita criança brasileira: Ultraseven apareceu. E depois apareceu O Regresso de Ultraman. Para quem não acompanhava a produção japonesa, aquilo podia parecer simplesmente que o mesmo sujeito tinha trocado de uniforme.😬

Especialmente porque Ultraman e O Regresso de Ultraman chegaram a ser exibidos simultaneamente em determinados períodos brasileiros, contribuindo para a confusão. Mas eram personagens diferentes de momentos cronológicos diferentes. E Ultraseven, por sua vez, era outra história, outro protagonista e outra identidade. É justamente por isso que a primeira série merece ser revisitada hoje com atenção especial. Shin Hayata continua sendo um dos personagens mais interessantes da história do Ultraman, pois ele não é simplesmente o “humano que vira gigante”. É um homem que teve sua vida literalmente interrompida por um encontro extraterrestre e que passa a carregar dentro de si uma entidade muito mais poderosa do que qualquer ser humano. Infelizmente a série não explora essa condição psicológica de maneira tão aprofundada quanto deveria e/ou poderia, mas a premissa é extraordinariamente rica. Hayata precisa manter segredo ao passo que precisa continuar desempenhando suas funções na Patrulha Científica. Precisa também observar seus companheiros enfrentando situações perigosas sabendo que, em determinado momento, provavelmente será necessário transformar-se. E, quando o Ultraman aparece, ninguém sabe que aquele gigante porradeiro com seus kiais histéricos e o discreto oficial Hayata são, de certa maneira, duas metades da mesma existência. Isso dá à série uma estrutura narrativa bastante particular porque Hayata é o elo entre os dois mundos. E então chegamos a ZETON…😬 Depois de 39 episódios, a primeira série chega ao seu clímax.
E não poderia ser uma despedida tranquila. Zeton aparece como uma ameaça criada para DERROTAR Ultraman — e consegue.😱 Não existe aqui a tradicional vitória gloriosa em que o herói simplesmente derrota o adversário mais poderoso e vai embora acenando para a plateia. Contrariando todas as expectativas, Ultraman é derrotado. O herói está exaurido, sua energia chegou ao limite e a ameaça representa um adversário que a própria Patrulha Científica precisa enfrentar. Zeton consegue aquilo que tantos monstros anteriores tentaram sem sucesso: derrubar o herói.😖 E então ocorre a separação entre Ultraman e Hayata. Zoffy chega para levar Ultraman de volta à sua terra natal, a Nebulosa M78, onde poderá recuperar suas forças, enquanto Hayata, por sua vez, permanece na Terra. É um final surpreendentemente melancólico para uma série que passou boa parte do tempo destruindo prédios de papelão. A despedida funciona justamente porque Hayata e Ultraman não são apresentados simplesmente como um herói e seu uniforme. Mais do que uma simbiose, existe uma relação de amizade, responsabilidade e sacrifício. E quando Ultraman parte, naquele epílogo amargo e inesperado que subverte totalmente os clichês do herói invencível, fica a sensação de que aquela parceria realmente terminou.😢 Ao menos por algum tempo. A ironia é que o universo Ultra continuou crescendo no Japão enquanto sua presença brasileira foi ficando cada vez mais fragmentada.

O Brasil recebeu Ultraman, Ultraseven e O Regresso de Ultraman, além de posteriormente conhecer outras produções em diferentes épocas e plataformas. Algumas séries chegaram ao streaming ou à televisão brasileira em momentos específicos e exibições erráticas — inclusive produções como Ultraman Max, Gaia, Nexus, Mebius, X, Orb e Geed. Mas isso está muito longe de representar toda a história. Enquanto no Japão a franquia passou por Ace, Taro, Leo, 80, Tiga, Dyna, Gaia, Cosmos, Nexus, Max, Mebius, Zero, Ginga, X, Orb, Geed, R/B, Taiga, Z, Trigger, Decker, além de filmes, especiais, animações e inúmeras outras produções, boa parte – na verdade, a maioria – desse gigantesco patrimônio permanece sem uma disponibilização brasileira abrangente e organizada.😢😢 E esse é talvez o maior desperdício porque o aniversário de 60 anos seria uma oportunidade perfeita para fazer aquilo que os fãs brasileiros esperam e sonham há décadas: Colocar a história dos Ultras inteira ao alcance do público brasileiro. Não apenas uma série aqui, outra ali!!! Não apenas uma produção moderna escolhida isoladamente!!! Mas uma verdadeira biblioteca Ultra, permitindo acompanhar a evolução da franquia desde Ultra Q, passando por Ultraman, Ultraseven, O Regresso de Ultraman e as séries clássicas seguintes, chegando às gerações posteriores. A própria celebração oficial dos 60 anos demonstra a dimensão desse patrimônio: a exposição comemorativa japonesa percorre produções que vão de Ultra Q às séries clássicas, às fases Heisei e New Generation, além de filmes, animações e produções para streaming. É impressionante perceber que aquilo que começou em 1966 continua funcionando.
Talvez porque Ultraman nunca tenha dependido exclusivamente de seus efeitos especiais. Os efeitos ajudaram a criar o espetáculo, os monstros deram à série sua identidade visual, os raios e as lutas proporcionaram a diversão… mas a essência sempre esteve em outra coisa: um ser de outro mundo que decide proteger um planeta que não é o seu. E, dentro dessa ideia aparentemente simples, existe uma mensagem que atravessou seis décadas: coragem, esperança, solidariedade e a possibilidade de diferentes seres encontrarem uma maneira de coexistir. Não por acaso, a própria Tsuburaya identifica esses valores como elementos centrais da trajetória da franquia. Por isso, neste aniversário de 60 anos, seria maravilhoso que algum serviço de streaming brasileiro resolvesse olhar para trás. Que recuperasse a primeira série completa, que devolvesse Hayata e a Patrulha Científica ao público brasileiro e que pudéssemos assistir novamente às 39 histórias na ordem original, com imagens e som remasterizados, sem depender de reprises perdidas, fitas antigas, versões incompletas ou lembranças de infância. E, depois de Hayata, que viessem Dan Moroboshi, Hideki Go, Ace, Taro, Leo, 80 e todos os demais. Até porque há algo particularmente simbólico em voltar ao começo. Antes da gigantesca família de Ultras, antes das linhas temporais, dos universos paralelos, dos encontros entre dezenas de heróis e da mitologia cada vez mais extensa, havia simplesmente um homem chamado Shin Hayata… e um extraterrestre que, depois de quase matá-lo, decidiu compartilhar sua vida com ele. Sessenta anos depois, essa parceria continua viva. E talvez esteja mais do que na hora de o Brasil finalmente reencontrá-la — desta vez, com Hayata, Ultraman e os 39 episódios completos esperando no catálogo de um streaming. Afinal, depois de seis décadas, até o gigante prateado merece finalmente voltar para casa.😉 SHUWAATTCHH!!!!!!!! Ops… 😁😁😁😁😁
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻