Leandro Banner

Há quadrinhos em que o roteiro é o grande protagonista. Há outros em que os personagens carregam a história nas costas. E há aqueles em que a arte simplesmente olha para todo mundo, cruza os braços e diz: “Deixa comigo”. VÓLTAR, do filipino ALFREDO ALCALA, pertence descaradamente à terceira categoria pelas razões que mencionaremos no decorrer deste texto.😉 Publicado pela Editora Pipoca & Nanquim em 2021 numa edição de luxo de 276 páginas, capa dura e formato generoso de 21 x 28 cm, o volume é daqueles que já começam ganhando antes mesmo de a primeira página ser lida. A editora caprichou na restauração, na reprodução e na apresentação do material, recuperando histórias que mereciam ser vistas com a qualidade que a arte de Alcala exige. A edição ainda reúne textos explicativos, informações biográficas sobre o autor, materiais complementares e uma galeria de imagens coloridas, transformando o livro não apenas numa coletânea de histórias, mas também numa pequena aula sobre um dos grandes artistas dos quadrinhos do século 20. E isso é particularmente importante no caso de Alfredo Alcala, porque VÓLTAR não é apenas uma aventura de espada e feitiçaria: é uma espécie de laboratório onde podemos observar a formação e a maturação de um artista que posteriormente deixaria sua marca no mercado norte-americano. Alcala criou VÓLTAR nas Filipinas em 1963, portanto sete anos antes de Conan fazer sua estreia nos quadrinhos americanos pelas mãos de Roy Thomas e Barry Windsor-Smith (já falamos sobre isso aqui: https://cinemacompoesia.com/2026/08/14/cn-2/). A comparação com o bárbaro cimério é inevitável — e, sejamos honestos, o próprio visual de VÓLTAR não ajuda muito a fugir dela. 😝 Mas existe uma diferença histórica fundamental: Alcala estava trabalhando com seu bárbaro ANTES de Conan existir nos quadrinhos. VÓLTAR pertence, portanto, a uma época em que a fantasia heroica ainda estava procurando sua forma visual nos gibis.
O mais curioso é que a criatura que poderia parecer um “Conan filipino” acabou antecipando justamente o artista que se tornaria um dos grandes responsáveis pela imagem definitiva de Conan nos quadrinhos americanos. Isso porque, quando Alfredo Alcala chegou à Marvel, seu trabalho como desenhista e, principalmente, como arte-finalista, tornou-se imediatamente reconhecível. Seu domínio do nanquim, das texturas, das massas negras e das hachuras transformava desenhos em verdadeiras gravuras. No título SAVAGE SWORD OF CONAN (no Brasil, A ESPADA SELVAGEM DE CONAN, que atualmente está sendo relançada no Brasil pela Panini Comics), particularmente, sua arte-final criou uma atmosfera quase arqueológica: músculos, armaduras, pedras, árvores, monstros, ruínas e tecidos pareciam ter sido esculpidos no papel. E VÓLTAR já apresentava esse Alcala. Talvez essa seja a maior surpresa da leitura. Estamos diante de uma obra dos anos 1960 e, de repente, encontramos páginas que parecem ter sido produzidas por alguém que descobriu uma máquina do tempo, visitou a Europa do século 19, estudou Gustave Doré, passou pela gravura clássica, voltou às Filipinas e resolveu desenhar quadrinhos.😂😂 E quem teve a oportunidade de apreciar esse lançamento e a arte de Alcala há de concordar com essa singela digressão, que pode parecer exagerada para quem ainda não viu suas maravilhosas ilustrações! É um ABSURDO de tão detalhado!!!
Difícil encontrar palavras que façam a devida justiça! Cada página possui uma quantidade de informação visual que parece desafiar a própria lógica da produção industrial de quadrinhos. Alcala não se contenta em desenhar um castelo: ele desenha pedras, rachaduras, sombras, paredes, vegetação e tudo aquilo que existe ao redor do castelo. Não basta colocar um personagem diante de uma floresta; é preciso construir a floresta. Não basta desenhar uma armadura; é preciso fazê-la parecer usada, amassada, suja e historicamente plausível. E o resultado é uma arte que frequentemente ameaça engolir o próprio roteiro. Isso não é necessariamente um problema, até porque, convenhamos, o roteiro de VÓLTAR está longe de ser o ponto alto da experiência. A narrativa trabalha com os elementos tradicionais da fantasia heroica: guerreiros, criaturas monstruosas, ameaças sobrenaturais, combates, reinos, perigos e aquele tipo de argumento que parece ter sido escrito sob o princípio de que, se existe uma espada na primeira página, alguém obrigatoriamente precisará usá-la antes da última.😝 A história cumpre seu papel, mas não é exatamente uma revolução narrativa.😬 A arte, entretanto, está em outra dimensão.
Alcala pega uma aventura que poderia ser apenas competente e a transforma em algo visualmente monumental e deslumbrante. O leitor continua virando as páginas não necessariamente para descobrir o que acontecerá com VÓLTAR, mas para descobrir como diabos Alcala vai desenhar a próxima página.😂 E aí reside a grande força do volume. As técnicas empregadas pelo artista dão às páginas uma aparência de gravura. As hachuras são abundantes, minuciosas e cuidadosamente distribuídas. O preto não aparece simplesmente como preenchimento: ele participa da construção da luz, do volume e da atmosfera. Há uma preocupação impressionante com textura e profundidade, fazendo com que personagens e cenários adquiram uma tridimensionalidade quase tátil. É uma arte que exige tempo, tanto na sua construção quanto na sua apreciação.😬 Você lê VÓLTAR uma vez e acompanha a aventura. Depois volta algumas páginas e percebe que havia detalhes que simplesmente passaram despercebidos. Na terceira visita, começa a entender que Alcala provavelmente considerava “espaço vazio” uma ofensa pessoal, tamanha sua disposição em preencher todos os espaços possíveis que pudessem “sobrar” na composição da ilustração (sem, contudo, sobrecarregá-la). E é justamente por isso que a edição da Pipoca & Nanquim funciona tão bem. O formato grande permite que o desenho respire e os detalhes floresçam. A qualidade da reprodução favorece sobremaneira o preto e branco e preserva as sutilezas do traço. A restauração é particularmente importante porque uma arte desse nível não pode ser apresentada de maneira descuidada. Um preto estourado ou uma impressão ruim pode destruir justamente aquilo que faz Alcala ser Alcala e, em última instância, comprometer a percepção da qualidade impressionante desse tremendo artista. O volume sob análise, ao contrário, procura devolver à obra sua força gráfica em todo seu esplendor.
Os extras também cumprem uma função importante. Os textos explicativos ajudam a contextualizar o artista, sua trajetória e a importância de VÓLTAR dentro da produção filipina. E isso é fundamental porque Alfredo Alcala não surgiu do nada quando chegou ao mercado americano. Ele já era um artista extremamente experiente e respeitado nas Filipinas, com uma produção extensa e uma capacidade de trabalho quase inacreditável. Sua passagem pelo mercado americano posteriormente o colocaria ao lado de alguns dos maiores nomes dos quadrinhos. Na Marvel, seu nome ficaria especialmente associado à ESPADA SELVAGEM DE CONAN, justamente numa época em que a revista procurava uma aparência mais sofisticada, adulta e detalhista. O encontro entre Alcala e Conan parecia inevitável: o artista que já havia criado VÓLTAR nos anos 1960 finalmente encontrava o personagem que ajudaria a transformar sua arte em referência internacional, em grande parte finalizando os lápis de John Buscema, num dos “casamentos de estilos” mais marcantes e perfeitos dos quadrinhos. E não foi apenas Conan. Na DC, Alcala também deixou sua marca como arte-finalista em diferentes títulos, incluindo trabalhos importantes no título do MONSTRO DO PÂNTANO, onde seu nanquim dialogou com desenhistas como Stephen Bissette e outros artistas da série. Seu nome aparece, por exemplo, nos créditos de SWAMP THING (vol.2) #49 e #82 (finalizando os desenhos a lápis de Stan Woch e Rick Veitch, respectivamente), mostrando como sua contribuição atravessou diferentes fases e estilos da publicação. Isso ajuda a compreender VÓLTAR como algo maior do que uma simples curiosidade histórica.
O personagem é uma espécie de prévia do Alfredo Alcala que o público americano conheceria anos depois. É possível enxergar na sua fase mainstream a mesma obsessão pela textura, o mesmo fascínio por roupas, armas, arquitetura, monstros e ambientes carregados de informação. É como assistir ao nascimento de uma assinatura artística que posteriormente apareceria em Conan, histórias de fantasia, ficção científica e em tantos outros trabalhos desse grande artista, infelizmente subvalorizado e pouco conhecido pelas últimas gerações de leitores. E há algo particularmente interessante nisso tudo: VÓLTAR não precisa ser uma obra-prima literária para ser uma obra-prima gráfica. São coisas diferentes. O roteiro pode ser fraco, irregular, convencional ou até mesmo datado em alguns momentos. Mas a arte transcende essas limitações. Alcala consegue fazer com que uma sequência simples de ação pareça uma página arrancada de um livro de ilustrações épicas. Uma cena de batalha ganha monumentalidade. Um monstro vira uma criatura digna de pesadelo. Um cenário passa a ter história própria. É por isso que VÓLTAR merece ser conhecido. Não apenas por ter chegado antes de Conan aos quadrinhos, mas porque representa um momento extraordinário na trajetória de Alfredo Alcala: um artista filipino trabalhando com fantasia heroica em uma época em que ninguém poderia imaginar que, anos depois, ele estaria ajudando a definir visualmente alguns dos mais importantes quadrinhos americanos. Ao fim e ao cabo, VÓLTAR pode até não ser o bárbaro mais sofisticado da literatura fantástica, mas provavelmente é um dos bárbaros mais bem desenhados que já passaram pelo papel. E quando o sujeito que desenha é Alfredo Alcala, fica difícil competir.
O roteiro pode até pedir clemência.😬
A arte, definitivamente, não.😉
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻